grito silencioso

o amor de psiquê é uma agulha

quarta-feira, maio 18, 2005

 

quase

O quase

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase. É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono. Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

[ Luiz Fernando Verissimo ]

terça-feira, maio 17, 2005

 

o indivíduo

O ser humano em sua individualidade é em si monótono e repetitivo.

segunda-feira, maio 09, 2005

 

criatividade é fuga

Ao contrário do que se possa pensar, os momentos criativos não trazem convergência... No auge de sua criatividade o criador expulsa alguma coisa, alguma idéia, num movimento de expansão, numa necessidade de se intervir na realidade a fim de se reinventar ou transformar o meio no qual está inserido. É a insatisfação o combustível.

O ser já está cansado de si mesmo ou não suporta mais a situação em que vive. Deve ser por isso que os marcos criativos na história, acontecem sempre em pós-guerras ou em momentos históricos de muita miséria, crise e descrença. Da mesma forma, a expressão artística, muitas vezes, é uma saída daquele que já está entediado de si, como bem exemplifica Clarisse Lispector em seu livro ‘A hora da estrela’:

Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.

É o momento em que o ser criativo mergulha em sua mente imaginativa para fugir da realidade na qual muitas vezes não se é possível intervir. Engraçado que somente agora consegui dar maior luz à uma afirmação que li dias atrás no livro ‘A poética do espaço’ de Gaston Bachelard, que talvez ajude a explicar porque as crianças são tão criativas:

[...] É bom, é saudável que uma criança tenha suas horas de tédio, que conheça a dialética do brinquedo exagerado e dos tédios sem causa, do tédio puro. [...]

Somente, então, a insuportabilidade do vigente possibilita o surgimento do novo de fato: o único, o universal, o atemporal. Quando já não há saída, e a melhor solução é fugir...


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