grito silencioso

o amor de psiquê é uma agulha

domingo, abril 17, 2005

 

sofrimento

Apesar de não conhecer muito, acho Carlos Drummond de Andrade genial. Sempre tive um pouco de problema quando mandavam ler suas obras na escola, o que me fez adotar uma espécie de atitude defensiva. Mas acabo sempre esbarrando em algum poema ou fragmento de livro de sua autoria e a maior parte delas eu gosto muito, pela beleza, pela verdade e pelo modo tão dele de dizer o que pensa. A característica marcante que observo é que há certa praticidade no que ele escreve, pois ele tem a capacidade de chegar ao ponto "x" da questão, dar a certa atenção ao que é mais importante e, de uma forma bastante interessante, ultrapassa a simples teoria e consegue nos fazer enxergar como aquilo é de fato posssivelmente aplicável, só precisamos de sensibilidade e força. E essas duas características faltam em muitos de nós. Talvez seja por isso que este poema dele seja ainda tão atual, pois somos todos tipicamente humanos!

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Viver não Dói

Definitivo, como tudo o que é simples.

Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas
e não se cumpriram.

Por que sofremos tanto por amor?

O certo seria a gente não sofrer,
apenas agradecer por termos conhecido
uma pessoa tão bacana,
que gerou em nós um sentimento intenso
e que nos fez companhia por um tempo razoável,
um tempo feliz.

Sofremos por quê?

Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas,
por todas as cidades que gostaríamos
de ter conhecido ao lado do nosso amor
e não conhecemos, por todos os filhos que
gostaríamos de ter tido junto e não tivemos,
por todos os shows e livros e silêncios
que gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco,
as por todas as horas livres
que deixamos de ter para ir ao cinema,
para conversar com um amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco,
mas por todos os momentos em que
poderíamos estar confidenciando a ela
nossas mais profundas angústias
se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo confiscado de nós,
impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos
e nunca chegamos a experimentar.

Como aliviar a dor do que não foi vivido?

A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!

A cada dia que vivo,
mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca,
e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos
também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.

[ Carlos Drummond de Andrade ]

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(maiores detalhes, leia "Agora você pode comentar!" postado dia 20.dez.2004)
 
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