grito silencioso

o amor de psiquê é uma agulha

domingo, janeiro 09, 2005

 

crise "poética"

De tempos em tempos passo por uma mesma crise. No fundo não sei porque escrevo. Mas o fato é que, não importa o que aconteça, continuo a escrever. E escrevendo vou acompanhando meus dias. É um impulso. Algo que vem mesmo de dentro. Uma forma de responder aos estímulos, de dizer que se está vivo...

O bom é que os escritores de prestígio dão certos norteios em suas observações metalinguísticas. O livro "Caderno H" de Mário Quintana, uma coletânea de publicações jornalísticas, tem uma, entitulada "Limites da Conversação", que dá uma boa sugestão:

Há certas coisas que não haveria mesmo ocasião de as colocarmos sensatamente numa conversa - e que só num poema estão no seu lugar. Deve ser por esse motivo que alguns de nós começamos a fazer versos. Um modo muito curioso de falar sozinho, como se vê, mas o único modo de certas coisas caírem no ouvido certo.
[ Mário Quintana .:. 'Caderno H' . "Limites da Conversação" ]

Concordo que algumas coisas simplesmente não são para serem faladas. Não por somente ser mais seguro, mas porque parece que são incompatíveis com a realidade externa a nós. Entretanto, atrevemo-nos a escrevê-las, colocando a quantidade necessária de subjetividade e sugestivismo em nossas aventuras. Pois qualquer tentativa de ser muito direto e objetivo resultaria numa tragédia. Afinal escrever é uma via muito peculiar da expressão e da comunicação. É um outro mundo, que dá abertura ao mesmo tempo que cria limites, no qual conseguimos achar, curiosamente, algum abrigo.

Há um outro fragmento que discursa sobre isso tudo de modo interessante:

As coisas mais importantes são as mais difíceis de expressar. São coisas das quais você se envergonha, pois as palavras as diminuem - as palavras reduzem as coisas que pareciam ilimitáveis quando estavam dentro de você à mera dimensão normal quando são reveladas. Mas é mais que isso não? As coisas mais importantes estão muito perto de onde seu segredo está enterrado, como pontos de referência para um tesouro que seus inimigos adorariam roubar. E você pode fazer revelações que lhe são muito difíceis e as pessoas o olharem de maneira esquisita, sem entender nada do que você disse nem porque eram tão importantes que você quase chorou enquanto você estava falando. Isso é o pior eu acho. Quando o segredo fica trancado lá dentro, não por falta de um narrador, mas de alguém que compreenda. [ Stephen King .:. 'The Four Seasons' ]

Passada a empolgação inicial da novidade de meu blog, comecei a me perguntar porque escrevo e, ainda, porque publico meus escritos. Mas talvez a resposta esteja no que Mário Quintana escreveu. Não que eu esteja procurando atingir determinados ouvidos, mas é que o texto certo a gente lê no momento mais imprevisível. O sentido de meu blog se constrói, então, numa não intensão, porém, num trabalho que se propõe a pelo menos não ser feito de qualquer jeito, embora seja bastante descompromissado.

A vida tem seus caminhos obscuros, suas razões humanamente incompreensíveis... mas acredito que exista um certo tipo de equilíbrio. Um desequilíbrio que está dentro de um equilíbrio-macro, de acordo com a Teoria do Caos, que diz que o bater de asas de uma borboleta numa parte do mundo pode gerar um tufão do outro lado. Tem que haver algum sentido em toda essa ligação interdependente.


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(maiores detalhes, leia "Agora você pode comentar!" postado dia 20.dez.2004)
 
É o momento em que o 'grito silencioso' acontece. =)
 
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