grito silencioso
o amor de psiquê é uma agulha
segunda-feira, janeiro 17, 2005
ainda o mesmo tema: o ato de escrever
Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias.
[ Clarisse Lispector .:. "A hora da estrela" ]
Vivo em busca de respostas, como uma espécie de ditadura interna, mas venho descobrindo que escrever é mais do que somente um instrumento para essa condenação infinita. A graça da invensão é incompatível com a rigidez da fidelidade.
Tentar me desvendar a cada dia através do ato de escrever muitas vezes me leva a ficar mais distante do ponto de afunilamento. Porque viver somente nisso gera bitolação. É necessário abstrair para dar espaço a pensamentos novos, à novidade em termos de matéria-prima. Abrir para fechar.
O mais interessante é que para uma pessoa tão séria como eu, o próprio escrever vem se tornando uma forma de sair de mim mesma, de sair do "como as coisas realmente são", ao invés de me levar cada vez mais para dentro. Como se agora eu utilizasse o ´eu-poético´ como escudo. Tanto a invensão em si em um texto quanto o seu processo de maturação tem o seu lugar especial. É realmente uma experiência, uma aventura. Mas que no fundo flui. O criar estratégico demais é "forçação de barra". No entanto, nada é criado do nada. Um texto sempre terá uma carga enorme de personalidade. De certa forma não há muito como fugir de si mesmo. E assim acaba-se chegando em si mesmo, o lugar onde se queria chegar desde o início, mas que dessa forma a viagem fica mais emocionante e talvez até mais rica.
Mais interessante ainda, é quando se consegue chegar no ponto de provocar no leitor desnorteio em meio a dúvidas quanto até que ponto o que está escrito é verdade ou não, até que ponto a narrativa diz respeito a quem escreve (como bem trabalhado no livro "Nove noites" de Bernardo de Carvalho). Porque é onde se dá espaço para imaginação de quem lê e o texto não se torna apenas uma produção que só faz sentido para quem a elaborou.
Chega um ponto em toda produção intelectual em que fica difícil separar o exagero para efeito, a meia verdade conveniente e a pura ficção.
[ Luis Fernando Veríssimo .:. "A eterna privação do zagueiro absoluto" ]
Só um comentário: vestibulando é uma tristeza, todos os livros comentados por mim neste post fazem parte dos livros exigidos pelo vestibular... mas até que tem um lado vantajoso, que de alguma forma me fizeram sair um pouco dessa bitolação.
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