grito silencioso

o amor de psiquê é uma agulha

domingo, dezembro 26, 2004

 

voices in my head

Estava aqui ouvindo a música "Voices" do Dream Theater [Parte II da música "A Mind Beside Itself", cd "Awake"] e lembrei que ela tem tudo a ver com este blog. Parece que o eu lírico está realmente gritando silenciosamente. É a sensação que o vocalista passa com sua interpretação e a melodia que a acompanha, é claro. Embora pode-se ouvir a música muito bem e ela não seja nem um pouco silenciosa! rs... O que eu quero dizer é que é um grito contido... As imagens criadas por ele nos fazem perceber com clareza seu coração gritando de dor, tentando extravasar toda a sua angústia ao mesmo tempo que a vive de forma intensa. A turbinação é interna e o externo é apenas um estranho do qual ele tem que se defender, embora o maior perigo para ele seja sua própria mente. É muito subjetiva a forma com que a mostruosidade de nossas mentes é trabalhada, o que dá maior amplitude ao ouvinte que mergulha na música e se integra a ela como se estivesse imerso em água. Mostra como elas são poderosas e de como são capazes de nos manipular.
É engraçado porque eu fico imaginando o John Petrucci, que eu suponho que seja tímido e reservado, levando em consideração seu signo, câncer, expressando-se como que arrancando sangue (como diz Clarisse Lispector), num momento de completa "solitude". Preferi utilizar o termo em inglês porque na língua inglesa faz-se distinção entre "solitude" e "loneliness". Ambas significam solidão, mas a primeira seria uma espécie de solidão ´boa´ e a segunda seria uma dita ´ruim´. Pensando bem, acho que estou indo longe demais!... Seria melhor ficar com solidão mesmo.... Como vou saber o que de fato ele sente em seus momentos de maior criatividade e expressão, se ele se sente bem ou mal!? Na verdade eu só queria dizer: em momentos em que ele está somente com ele mesmo. A confusão é que usamos nossa língua com muito preconceito enraizado nas palavras. Os brasileiros não conhecem exatamente o significado de cada uma delas. O senso comum as deturpa tanto que a própria palavra ´preconceito´ é a que mais carrega preconceito!
Bom, segue abaixo a letra da música. Peço desculpas adiantadas ao clube dos "odeio inglês" mas esta eu não me atrevo a traduzir, porque ela é subjetiva demais! Se alguém se arrisca, pode me mandar sua sugestão.

VOICES
Lyrics by John Petrucci

'Love, just don't stare'
He used to say to me
every Sunday morning
The spider in the window
The angel in the pool
The old man takes the poison
Now the widow makes the rules

'So speak, I'm right here'
She used to say to me
not a word, not a word
Judas on the ceiling
the Devil in my bed
I guess Easter's never coming
So I'll just wait inside my head

Like a scream but sort of silent
living off my nightmares

Voices repeating me
'Feeling threatened?
We reflect your hopes and fears.'
Voices discussing me
'Others steal your thoughts
they're not confined
within your mind.'

Thought disorder
Dream control
Now they read my mind on the radio
But where was the Garden of Eden?

I feel elated
I feel depressed
Sex is death, Death is sex
Says it right here on my Crucifix
Like a scream but sort of silent
living off my nightmares

Voices protecting me
'Good behavior
brings the Savior
to his knees.'
Voices rejecting me
'Others steal your thoughts
they're not confined
to your own mind.'

"I don't wanna be here, 'cause of my
suffering, 'cause of my illness.
Only love is worth having, only
love is what matters, loving every
people on equal terms. "
"You've got to know who you're
dealin' with because, like a stranger,
a-heh, just might come in through
here with a gun... and then, what
would you do? (Heh.)"
"Everything is immaterial..."
"'n' you know that reality is immaterial."
"This is not reality..."

I'm kneeling on the floor
staring at the wall
like the spider in the window
I wish that I could speak
Is there fantasy in refuge?
God in politicians?
Should I turn on my religion?
These demons in my head tell me to

I'm lying here in bed
Swear my skin is inside out
Just another Sunday morning

Seen my diary on the newsstand
Seems we've lost the truth to quicksand
It's a shame no one is praying
'Cause these voices in my head
keep saying...

'Love, just don't stare.'
'Reveal the Word when you're
supposed to'
Withdrawn and introverted
Infectiously perverted
'Being laughed at and confused
keeps us pleasantly amused
enough to stay.'

Maybe I'm just Cassandra fleeting
Twentieth century Icon bleeding
Willing to risk Salvation
to escape from isolation

I'm witness to redemption
heard you speak but never listened
Can you rid me of my secrets?
Deliver us from Darkness?

Voices repeating me
'Feeling threatened?
We reflect your hopes and fears.'
Voices discussing me
Don't expect your own Messiah
This neverworld which you desire
is only in your mind.

sábado, dezembro 25, 2004

 

natal?

kakakaka!!!.... olha só a frase que ouvi hoje:

" Hoje é o dia em que o menino judeu nasceu...
E nós comemoramos o dia do comércio! "

demais!

 

música

Noossa gente... é por isso que eu gosto das letras do Dream Theater, mais especificamente as que o John Petrucci, o guitarrista, escreve... É tão sutil e tão profunda a forma com que ele escreve suas letras... Na música "Endless Sacrifice", do último cd gravado em estúdio "Train of Thought", a situação descrita é praticamente uma declaração e prova de amor.... e não é mencionado em momento algum a palavra "love" no sentido de "I love you".... E isso é algo recorrente nas letras dessa banda... Fico viajando comigo mesma... É "Teatro dos Sonhos" mesmo... é para onde ela parece nos levar através de suas músicas: melodias e letras... Ao ouví-las, quase que vivemos junto com elas suas cenas da vida humana tomadas num enfoque diferente... Não é esse blá, blá, blá das músicas mais famosinhas... Não estou querendo desdenhá-las exatamente. E só porque parecem falar todas da mesma coisa, do mesmo jeito, nos fazem ter sempre as mesmas sensações... Em Dream Theater vejo que, mesmo que o tema já seja batido, a forma de lidar com ele é inusitada. E isso pra mim é o que legitima o verdadeiro artista: o ponto de vista e a capacidade de tocar as pessoas. Arte é reflexão, sentimento, sentidos. Por isso é difícil considerar artistas essas pessoas que entram pra mídia rapidamente, embasadas num grande produtor, que estão ali para, e somente para, fazer sucesso e ganhar dinheiro e não exatamente por vocação. Assim não há como surgirem boas produções artísticas, daquelas que ficam para posteridade.
Bom, eu não sou muito boa em inglês, mas fiz uma traduçãozinha mais ou menos, se não alguns amigos me xingariam muito!... Algumas partes ficaram meio esquisitas mesmo, mas espero que dê pra pegar a idéia. Se algum expert em inglês passar por aqui, sinta-se a vontade pra corrigir minha tentativa de tradução! Ficarei inclusive agradecida.


ENDLESS SACRIFICE
Lyrics by John Petrucci

Cold
Frio
Lying in my bed
Deitado em minha cama
Staring into darkness
Fitando a escuridão
Lost
Perdido
I hear footsteps overhead
Eu ouço passos sobre minha cabeça
And my thoughts return
E meus pensamentos retornam
Again
De novo

Like a child who’s run away
Como uma criança que corre para longe
And won’t be coming back
E não há como voltar
Time keeps passing by
O tempo continua passando
As night turns into day
Assim como a noite se transforma em dia

I’m so far away
Estou tão distante
And so alone
E tão sozinho
I need to see your face
Preciso ver sua face
To keep me sane
Para me manter são
To make we whole
Para nos fazer completos

Try to stay alive
Tente permanecer viva
Until I hear your voice
Até que eu ouça sua voz
I’m gonna lose my mind
Perderei minha mente
Someone tell me why
Alguém diga-me porque
I chose this life
Eu escolhi essa vida
This superficial lie
Esta mentira superficial
Constant compromise
Cmpromisso constante
Endless sacrifice
Sacrifício infinito

Pain
Dor
It saddens me to know
Entristece-me saber
The helplessness you feel
O desamparo que você sente
Your light
Sua luz
Shines on my soul
Brilha sobre minha alma
While a thousand candles
Enquanto um milhão de velas
Burn
Queimam

Outside this barren room
Fora deste quarto árido
The rain is pouring down
A chuva está jorrando (!?)
The emptiness inside
O vazio interno
Is growing deeper still
Está crescendo profundamente ainda

You’re so far away
Você está tão distante
And so alone
E tão sozinha
You long for love’s embrace
Você está esperando por um abraço de amor
To keep you sane
Para manter você sã
To make you whole
Para fazer você completa

Try to stay alive
Tente permanecer viva
Until I hear your voice
Até que eu ouça sua voz
I’m gonna lose my mind
Perderei minha mente

Someone tell me why
Alguém diga-me porque
I chose this life
Eu escolhi essa vida
This superficial lie
Esta mentira superficial
Constant compromise
Cmpromisso constante
Endless sacrifice
Sacrifício infinito


Moments wasted
Momentos desperdiçados
Isolated
Isolados
Time escaping
Tempo escapando
Endless sacrifice
Sacrifício infinito

Moments wasted
Momentos desperdiçados
Isolated
Isolados
Time escaping
Tempo escapando
Endless sacrifice
Sacrifício infinito


Over the distance
Acima da distância
We try to make sense
Nós tentamos fazer sentido
Of surviving together
de sobrevivermos juntos
While living apart
Enquanto vivemos separados

Striving for balance
Lutando por equilíbrio
We rise to the challenge
Nós ascendemos para o desafio
Of staying connected
De continuarmos conectados
In spite of circumstance
Apesar da circunstância

All you’ve forsaken
Tudo o que você abandona
And all that you’ve done
E tudo o que você faz
So that I could live out
Então eu poderia viver fora
This undying dream
Deste sonho imortal

Won’t be forgotten
Não será esquecido
Or taken for granted
Ou tido como certo
I’ll always remember
Eu sempre lembrarei
Your endless sacrifice
Seu sacrifício infinito

Moments wasted
Momentos desperdiçados
Isolated
Isolados
Time escaping
Tempo escapando
Endless sacrifice
Sacrifício infinito

Moments wasted
Momentos desperdiçados
Isolated
Isolados

Time escaping
Tempo escapando
Endless sacrifice
Sacrifício infinito

segunda-feira, dezembro 20, 2004

 

o convite

Não me interessa saber como você ganha a vida.
Quero saber o que mais deseja
e se ousa sonhar em satisfazer os anseios do seu coração.

Não me interessa saber sua idade.
Quero saber se você correria o risco de parecer tolo
por amor,
pelo seu sonho,
pela aventura de estar vivo.

Não me interessa saber quais planetas
estão em quadratura com sua Lua.
O que eu quero saber
é se você já foi até o fundo de sua própria tristeza,
se as traições da vida o enriqueceram
ou se você se retraiu e se fechou,
com medo de mais dor.

Quero saber se você consegue viver com a dor,
a minha ou a sua,
sem tentar escondê-la,
ou disfarçá-la
ou remediá-la.

Quero saber se é capaz de conviver com a alegria,
a minha ou a sua,
de dançar com total abandono
e deixar o êxtase penetrar até a ponta dos seus dedos
sem nos advertir que sejamos cuidadosos,
que sejamos realistas,
que nos lembremos das limitações humanas.

Não me interessa se a história que você me conta
é verdadeira.
Quero saber se é capaz
de desapontar o outro
para se manter fiel a si mesmo.
Se é capaz de suportar uma acusação de traição
e não trair sua própria alma.
Ou ser infiel
e, mesmo assim, ser digno de confiança.

Quero saber se você é capaz
de enxergar a Beleza no dia-a-dia,
ainda que ela não seja bonita,
e fazer dela a fonte de sua vida.

Quero saber se você consegue viver com o fracasso,
o seu e o meu,
e ainda assim pôr-se de pé na beira do lago
para o reflexo prateado da Lua Cheia,
"Sim!"

Não me interessa
saber onde você mora ou quanto dinheiro tem.
Quero saber se,
após uma noite de tristeza e desespero,
exausto e sofrido até os ossos,
é capaz de fazer o que precisa ser feito
para alimentar seus filhos.

Não me interessa saber quem você conhece
ou como chegou até aqui.
Quero saber se vai permanecer
no centro do fogo
comigo,
sem recuar.

Não me interessa
onde, o que ou com quem estudou.
Quero saber o que o sustenta,
no seu íntimo,
quando tudo o mais desmorona.

Quero saber se é capaz de ficar só
consigo mesmo,
e se nos momentos vazios
realmente gosta da sua companhia.

[ Oriah Mountain Dreamer .:. "O convite" ]

texto original: http://www.oriahmountaindreamer.com

 

agora você pode comentar!

É eu sei... Imagino que você tenha ficado completamente frustrado(a) quando tentou comentar em meu blog e se deparou com um tal de ‘login’ e ‘senha’, escrito em inglês ainda, e se perguntou: “Que raio de negócio esse?” Calma! Eu pensei numa solução. Cadastrei um login pra ser “comunitário”, mas coloque seu nome no final da mensagem, se não aparecerá como assinatura apenas “visitante” e eu não saberei quem é.
Login: visitantesilencioso
Senha: querofalar
boa aventura!
=)


segunda-feira, dezembro 13, 2004

 

seu pior inimigo

"É duro lutar contra um inimigo quando ele tem uma base militar instalada na sua cabeça."
Sally Kempton

Seu pior inimigo levanta, come e dorme com você. Ele lê todos os seus pensamentos e conhece seus mais íntimos desejos, mesmo os mais proibidos e que você insiste em fazer de conta que não tem. Ele sabe mais sobre você do que você mesmo e está acordado enquanto você dorme, observando seus sonhos sem censura. Ele não acredita em suas palavras, somente em seus pensamentos.

Ele não se importa com seu cargo, com os amigos que você tem ou com seu currículo. Ele sabe quando você está dizendo algo porque realmente acredita nisso ou quando está usando de cinismo, mentira ou manipulação. Seus medos estão catalogados por ele e, como um guerrilheiro, ele só ataca você em seus pontos fracos, nunca nos fortes. Ele está à espreita para derrubar você, sempre usando a arma mais mortal que existe: o conhecimento completo do território de batalha e as racionalizações que você cria -- nome dado aos motivos aparentemente lógicos, para coisas ilógicas.
O único objetivo deste inimigo é derrubar você e fazer com que seu nome seja esquecido logo após sua morte. Ele não quer que você tenha herdeiros de nenhum tipo e fará o impossível para que você não deixe nenhum legado sobre a Terra. Ele quer anular você. Primeiro, tentando fazer com que você acredite na falsa idéia de não ter valor, que é desnecessário no mundo e, depois, por meio dos seus atos, convencer as outras pessoas disso. Ele está lendo isso agora e procurando razões para que você não acredite em sua existência.
Seu pior inimigo é uma parte obscura de você. Ele nasceu com você e permanece dentro da sua mente, na escuridão dos seus medos, na claridade de sua bondade e no cinza de seu dia-a-dia. Se você gosta de ser preguiçoso, mas sabe que isso não é bem visto, seu inimigo procurará diversas razões absolutamente lógicas e publicamente aceitáveis para que você não faça algo de que deve ser feito. Aos poucos, você não fará nada que seja importante. Assim você será um fracasso profissional, um peão esquecido no jogo de xadrez da vida.
Mas, se você gosta de ter uma imagem de qualidade, seu inimigo fará o inverso, tornando você um perfeccionista crônico, do tipo que troca as relações mais importantes da sua vida pelo duvidoso prazer de trabalhar dia e noite. Uma pessoa-máquina que só encontrará gratificação no trabalho, que não pensa em ter filhos ou quer distância dos que já tem, que se viciou em adrenalina causada por stress e para quem amor e compromissos de verdade só atrapalham a agenda. Assim, você se sentirá um fracasso em família e, com o tempo, não terá nenhuma raiz ou fundação que o mantenha feliz.
Se você gosta de comer, seu pior inimigo colocará os mais deliciosos pratos na sua frente, o dia todo, e atrapalhará seus pensamentos lógicos sempre que tiver fome, empanturrando você de todo tipo de alimento engordativo para tirar seu corpo do nível ótimo de funcionamento e acabar com sua auto-estima. Ele também tentará convencer você de que frutas, água, sucos e outros alimentos saudáveis têm gosto ruim, quando uma breve análise da culinária mundial mostrará que nosso cérebro se adapta rapidamente a quase qualquer sabor.
Se você gosta de fumar, se gosta de álcool ou de qualquer tipo de "reforço químico" para se afirmar, ele criará todo tipo de situação para que você associe isso a momentos agradáveis, até que seja essencial para você sentir-se completo somente quando fuma, quando bebe ou usa outros tipos de drogas, ainda mais letais. A única meta de seu inimigo, neste caso, é aniquilar e matar você pela destruição de seu corpo, sua mente, seu território, o mais rápido possível.
Conquistar uma pessoa, um grupo, um país ou o mundo é muito mais fácil do que conquistar sua própria mente. Mas esta deve ser sua meta de vida. Pergunte sempre se não está exagerando naquilo que você faz, ou não faz. Se sua vida estiver em desequilíbrio, pode ser que você esteja perdendo a batalha para seu pior inimigo pensando que está tendo cada vez mais sucesso. Sua vida pode estar dando todos os sinais de que o desastre se aproxima, mas você racionaliza e acredita que está tudo bem. Você está em batalha, meu amigo. Todos nós estamos. Uma batalha que terá que ser travada todos os dias de nossa vida. Mas que você só tem que vencer por hoje. Só por hoje.
Como diz, Sally Kempton, é duro lutar contra um inimigo quando ele tem uma base militar de ataque instalada na sua cabeça. Vencer essa guerra não é possível nem necessário porque, como toda batalha acontece somente durante 1 dia -- o hoje -- é possível vencer todas as batalhas, uma-a-uma, mesmo que essa guerra jamais termine.
Veja este seu inimigo como aqueles lutadores de boxe contratados para lutar contra grandes campeões durante os treinamentos. Eles batem forte, eles fazem os campeões cairem, eles estão sempre sendo trocados por outros, descansados, mas sem eles os campeões jamais estariam preparados para as lutas verdadeiras, fora do treinamento. Seu inimigo é somente um treinador contratado por você para desafia-lo, ou desafia-la, o dia todo. Visto assim, ele pode se transformar no seu maior amigo.
Basta que você não seja derrubado HOJE por ele. Somente por HOJE

[ Aldo Novak (aldonovak@academianovak.com.br)
Coach, jornalista e conferencista, diretor da Academia Novak do Brasil.
http://www.academianovak.com.br Porque Acertar é Humano. ]

quinta-feira, dezembro 09, 2004

 

putz!

Conselho: não vá procurar na internet alguma figura desta tela de Vermeer... (post: "os mapas") Há determinadas descobertas que não valem a pena... O vislumbre de informação imediata dessa era nossa conturbada pode ser traiçoeiro. Eu, em meu gosto habitual por querer conhecer a versão original de tudo, tive uma profunda decepção com o que eu vi quando a encontrei. A imagem formada em minha cabeça é milhões de vezes mais emocionante; e, acredite, o texto não é mais o mesmo, não tem a mesma magia depois que aquela imagem cola em sua caxola igual um chiclete recém-mascado. Agora tenho que conviver com ambas: a construção mental perfeita e a imagem original, que é completamente inexpressiva. Como é atormentador. Fico repetindo todos os dias para minha mente esquecer aquilo que ela viu... Mas infelizmente nossa mente não é tão seletiva quanto às vezes a imploramos. Descobri, então, perplexa, que o ingrediente que confere à literatura seu lugar especial é a imaginação de quem lê e que, muitas vezes a intenção de quem escreve é só o impulso, não é a obra de arte em si. Você, leitor mais atento, deve ter se perguntado: Como Rubem Alves conseguiu extrair daquilo aquele texto tão sensível? rs... Foi a primeira pergunta que eu me fiz! E a minha conclusão é de que ele era também "aquele que lia" a tela. E talvez a minha frustação tenha sido tão grande por minha distância, devido ao tamanho de nossas imaginações, pois a minha imaginação criou a partir do que a imaginação de Rubem Alves criou a partir da criação da imaginação do pintor. Putz, Matrix!! Vamos parar por aqui. rs!... É... talvez exista o lado bom das distorções... Espero, do fundo do meu coração, que um dia essa maldita imagem se desentegre de minhas coleções visuais. A punição serviu de lição: "O essencial é [realmente] invisível aos olhos..."


 

os mapas

Olhei de novo a tela do Vermeer. O nome diz quase nada: "Mulher lendo uma carta". De fato para aqueles que só vêem o que os olhos vêem, mulher grávida, de perfil, bata azul, lê uma carta. Os lábios estão entreabertos e o rosto iluminado por um sutilíssimo, quase imperceptível sorriso. Ao fundo um enorme mapa da Europa e da Costa da África, que toma quase toda a parede. As telas são como sonhos. Nelas nada é acidental. Aquele mapa não está ali por acidente. O pintor ali o colocou por alguma razão. Na verdade, é a luz de sombra que ilumina a luz brilhante que ilumina a carta.
O que diz o mapa?
Não conheço uma mulher que tenha permitido que um mapa de tal porte tomasse uma parede inteira da casa. Quadros, pratos e posters decoram muito mais. Mas aquele mapa não era só um mapa. Isto não está dito na tela. Há muitas coisas que os pintores não conseguem dizer. Coisas que eles só podem sugerir, na esperança de que o observador sensível veja o que não pode ser pintado. "O essencial é invisível aos olhos". O que se vê nada é comparado ao que se imagina. Imagine que aquele mapa havia sido amor. Mais precisamente: de um amor que se prepara para a partida. Pois não é isso que o quadro está dizendo - que o homem que ela ama é um marinheiro que está longe, muito longe de sua casa, num lugar indefinido daquele mar imenso? Sim, ele deveria partir. Precisa deixar com aquela mulher que ele amava um pedaço dele mesmo. E, de fato, assim fizera: ela estava grávida. Isto o pintor pode mostrar. No abraço de amor ele dissera: "Fico dentro de você".
Mas isso não lhe bastava. Ele queria mais. Da distância ele saberia sempre onde ela estava. Mas, e ela? Como saberia? Foi então que pensou no mapa. Comprou-o , trouxe-o. Ah! Estranho aquele presente! Abriu o mapa e os dedos foram desenhando, indicando portos, marcando tempos. Aqueles seriam os caminhos de sua ausência. Assim quando ela sentisse saudades dele, seus dedos de mulher grávida poderiam acariciar aquele mapa como se fosse o corpo dele. São muitos os rituais eucarísticos: "Isto é o meu corpo".
Feliz a nossa língua em que a palavra carta tem duplo sentido. Enquanto não chegasse a carta ela poderia se consolar com a carta. Quando a separação acontece, os espaços entre amantes se tornam mapas. O pintor Wesley Duke Lee, faz alguns anos, fez um trabalho que os primeiros mapas não foram feitos pelo interesse numa descrição científica e abstrata dos espaços. Os primeiros mapas devem ter sido instrumentos de amor: sinais numa casca de árvore indicando o lugar do encontro. Até hoje é assim: só que usamos endereços e números de telefone no lugar de sinais numa casca de árvore.
Os mapas, na sua condição mais profunda, são os desenhos que fazemos sobre o espaço vazio para tornar a separação menos dolorosa. Quando minha mãe morreu - ela era uma velhinha de 93 anos de idade, meu irmão me contou que ele lidava com a sua ausência imaginando-a caminhando pelos espaços siderais.
Está dito lá em o Pequeno Príncipe. Chegara a hora dele voltar para seu pequeno mundo. Afinal de contas, no seu asteróide, havia um carneiro e uma rosa, que o aguardavam. Mas o seu novo amigo sofria com a separação. Ele queria que o principezinho ficasse. Foi preciso que o pequeno príncipe explicasse: "As pessoas têm estrelas, que não são as mesmas. Para alguns, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para os sábios, elas são problemas a serem resolvidos. Mas todas essas estrelas são mudas. Tu, porém terá estrelas como ninguém... Quando olhares para o céu, na noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem. E tu terás estrelas que sabem rir! Teus amigos ficarão espantados vendo-te sorrir enquanto olhas para o céu. E tu explicarás: 'Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir'. E eles te julgarão maluco..."
Assim são os meus mapas. Olho para vastos espaços. Identifico rios, montanhas, mares, cidades. Não me dizem coisa alguma. Não me produzem nenhum riso. Mas há uns poucos lugares que brilham como estrelas. São lugares onde eu fui feliz, vi a beleza, experimentei o amor. Cada um tem um mapa que é só seu. Imagine que terminada a leitura da carta da carta, a mulher voltou-se para o mapa e se pôs a sorrir enquanto as mãos iam deslizando pelos mares, continentes, cidades... Alguém que a visse nesse estado de êxtase, concluiria que ela havia enlouquecido. É compreensível: somente as amantes sabem que os mapas facilmente se transformam em corpo. Basta para isso que a despedida aconteça...
[ Rubem Alves ]

quarta-feira, dezembro 08, 2004

 

devaneios existenciais

Hoje, pela primeira vez, tive vontade de ser criança de novo. Acho que isso é porque resolvi encarar as coisas com mais maturidade. Mas além disso, acho que envelheci um pouco. Percebo que hoje eu não vejo mais as coisas com os mesmos olhos. É estranho viver quando se percebe os dois lados da moeda e tem-se que escolher um caminho, escolher o que vamos perder. É tão bom viver sem responsabilidades. "Eu era feliz e não sabia"... rs. A gente cresce e aprende a fazer sempre a pergunta "para que?", a visão funcional de tudo nos aflora e até extrapolamos, perguntando a funcionalidade das pessoas. Não existe isso, a não ser no campo dos negócios em que o que manda são os contatos. É triste ver as pessoas caminharem sempre na mesma direção e me ver fazendo parte dessa leva. Correr atrás da vida, fazer parte do sistema para não ser sufucado por ele. E alguns ainda acreditam que a liberdade existe. Há tantos mistérios no mundo para serem desvendados, há tanto que não sabemos e não compreendemos que fariam nossas concepções modificarem tanto, que nos fariam encontrar um outro mundo mais distante das ilusões que alimentam nossos dias e que a humanidade compartilha, das quais as pessoas já estão viciadas e se sentiriam perdidas e desamparadas sem elas. Tenho medo do ser humano às vezes. Ele é múltiplo demais ao mesmo tempo que é simplório e não muito diferente uns dos outros. Somos todos da mesma raça e nossos destinos e aprendizagens são os mesmos. É o que as amarras dessa realidade me fazem concluir. As pessoas perambulam, não sabem para onde estão indo. A maior parte se contentando com ´nadas´ e algumas procurando o sentido de tudo, quando o sentido da própria existência é o mais obscuro. A nossa função no mundo. É isso que nos atormenta, porque quando entendermos para que estamos aqui todos os outros sentidos se tornarão compreensíveis. Agora começo a entender determinadas conversas com uns amigos. E confesso que o que sinto é que nossos esforços não fazem diferença. Somos pequenos demais.

 

faça valer a pena

Reencontrei em meus guardados um texto que um amigo muito especial esreveu para mim há um tempo. Gosto muito deste texto, é muito bonita a forma sutil com que as imagens são constuídas e descritas. O texto trás uma visão muito gostosa da vida que muitas vezes deixamos de lado por motivos mesquinhos. É realmente um fardo viver aqui, acordar todos os dias, respirar fundo e continuar dando nossos passos; mas tudo isso pode começar a fazer sentido se nos empenharmos em encontrar a verdadeira importância das coisas, das pessoas e não nos corrompermos. Somos fracos, facilmente deturpamos tudo e o resultado é desequilíbrio. Viver e se relacionar é um esfoço constante, não tem dessa de ser levado pela corrente. Nem sempre o fluxo nos leva aonde queremos. É preciso sensibilidade, embora isso muitas vezes faça doer mais estar vivo, e é isso que o texto nos mostra e alerta: que é preciso ter sensibilidade para percebermos as pequenas coisas da vida e a própria vida. Obrigada pelo texto e pela amizade, grande amigo E.D. Você consegue fazer as pessoas verem as coisas de forma diferente, e isso é uma característica admirável. Ah, espero que não se importe.
...................................................................................................................
"Se algum dia você chegar na janela do seu quarto e não olhar para o céu aberto
Se algum dia você deixar de observar as estrelas que brilham no céu
Se você não parar para sentir o Sol acariciando sua face com seus dourados e calorosos raios
Se você não andar mais descalça em poças para sentir o frio da água em seus pés
Se você não conseguir enxergar a beleza do verde das plantas onde passa
Se você deixar de gritar quando der vontade
Se você não parar tudo o que está fazendo para ouvir uma música
Se você não fica mais de cabeça pra baixo observando o mundo e sentindo o poderoso poder da gravidade
Se você não vai mais à cozinha fazer experimentos e sujá-la toda
Se você não se vê mais em Histórias incríveis quando está fazendo algo importante
Se não olha para o céu procurando discos voadores
Se não conta histórias para si mesma
Se não canta no banheiro toda desafinada simplesmente por cantar
Se você não brinca mais com seus irmãos de almofadas até que toda a energia do seu corpo se acabe
Se não olha mais com brilho nos olhos quando vê uma pessoa querida
Se você não se deixa levar pelos sentimentos até que tais lhe façam desmanchar em lágrimas
Se não anda mais no quintal da sua casa pensando em inventar alguma coisa nova
Se você não estuda consultando cinco livros ao mesmo tempo, não entendendo nada, mas ficando orgulhosa de si mesma
Se você não sai mais correndo pelo bairro quando algo te incomoda
Se você não tem uma vontade incompreendida de tocar algum instrumento
Se não escreve mais um monte de coisas secretas apenas para correr o risco de que outras pessoas as encontre
Se você não sente mais aquela esperança de encontrar um príncipe encantado
Se você não brinca mais com seus amigos de quem conseque ficar mais tempo olhando nos olhos um do outro sem piscar
Se você não vai sozinha para um lugar que você pensa ser só seu para poder esclarecer as idéias
Se não olha mais para as coisas como se fosse a primeira vez que as viu
Se você não dá mais gargalhadas até o rosto ficar vermelho e todo molhado de lágrimas
E, principalmente, se você não questiona mais as coisas que faz você está precisando rever seus conceitos.
Viva a vida, foi para isso que ela foi feita. Não se arrependa no futuro do tempo que perdeu e nem se lamente de coisas que não fez. Faça tudo aquilo que vier na cabeça que não vai te prejudicar. Estude por que você gosta e não por obrigação, leia com gosto e não para fazer uma prova. Sugue toda a essência da sua alma e do universo e sinta a vida fluindo em suas veias. Olhe para o mundo e pule de felicidade por que você está nele. Vença todos os seus temores e abrace seus inimigos. Faça com que a vida valha a pena."


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